CAPÍTULO III
A historiografia da recolha
PERCURSOS INICIAS
Para situar este Livro delas, quero contar, mesmo que abreviadamente, como se deu meu encontro com esse mundo poético e a minha viagem aos territórios e espaços dele em um processo que chamo de trajetória de afetos. Nesse percurso, combinei dois tipos de pesquisa: uma objetiva, a outra subjetiva. É esta que exige e merece maior explicação, dado que nos estudos de Letras, a pesquisa fundada na observação e na experiência da realidade como fonte de conhecimento está suspeita e considerada não científica. Mesmo Assim, tomei a decisão (naquela altura, ainda intuitiva, hoje em dia, uma profunda convicção) que não deveria me distanciar deste (meu) corpo, desta minha vida vivida; pontos de partida e portos de chegada da minha existência de mulher militante, ecofeminista, poeta cordelista, editora de folhetos, pesquisadora e professora universitária que nasceu e vive num espaço de tradição do folheto (Juazeiro do Norte), terra de muitos caminhos criativos da arte e da reinvenção permanente da sua cultura. Reivindico-me como uma participante e, ao mesmo tempo, observadora-de-dentro dessa minha cultura, tão distorcida pelas elites do meu país e os discursos escriptocêntricos, construídos “de fora”, na Academia, um lugar que tem suas virtudes, teorias e trunfos, mas também as suas ideologias, discursos e pressupostos que muitas vezes nos iludem e cegam.
NO CAMINHO DA ACADEMIA
A minha dissertação de mestrado sobre mulheres cearenses, autoras de cordel, que viria a defender em 2002, foi orientada pela professora Irles de Alencar Firmo Barreira. Permitiu trazer ao palco uma importante produção de cordéis, escritos e publicados por mulheres nas cidades de Crato e Juazeiro do Norte, oportunizando a catalogação de 24 autoras com 104 folhetos coletados, fundamentais para analisar as dimensões e o significado de um processo crítico que denominei de ressignificação do cordel. Essa dissertação, agraciada em 2005 com o segundo lugar no Prêmio Raymond Cantel de Monografia, sob a organização da Secretaria de Cultura da Paraíba e a Universidade de Poitiers (França), serviu de base para uma nova pesquisa contemplada no IV Edital de Incentivo às Artes da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará. Seu resultado seria publicado em 2008 pelo projeto SESCordel de Fortaleza, sob o título "Romaria dos Versos: mulheres autoras na ressignificação do cordel", com capa e projeto gráfico realizados pela poetisa cearense Arlene Holanda. Essa “romaria de versos”, escritos e publicados por mulheres cearenses, me permitiu mostrar a enorme lacuna na historiografia do folheto em relação à questão feminina e inventariar e desconstruir as estratégias sutis e subterrâneas com as quais eram construídos e divulgados os discursos sobre o cordel como sendo de autoria exclusivamente masculina.