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CAPÍTULO I
Caminhos e abordagens

APRESENTAÇÃO
NOVA HISTÓRIA DO CORDEL: “A HORA E A VEZ” DAS VOZES FEMININAS NOS FOLHETOS

 

Uma espécie de revolução de paradigmas altera a perspectiva da historiografia do cordel, como retórica e sujeito da enunciação do que se pretende narrar. O debate acerca dos novos paradigmas do cordel é o objeto do Livro Delas: folhetos de autoria feminina no Nordeste do Brasil, resultado da tese de doutorado em Letras pela UFPB, de Francisca Pereira dos Santos, ou simplesmente Fanka, professora e pesquisadora cearense.

A pesquisa de Fanka Santos é fundamental para se entender as novas produções do cordel no século XX e na primeira década do século XXI. A autora faz uma “revolução copernicana”, expressão de Jean-Claude Schmitt. Isso porque mostra uma Nova História do cordel no Nordeste do Brasil, pontuando as mudanças da poética e da história do gênero nos folhetos de cordel. Uma característica da Nova História é descentralizar o olhar dos estudos fetichizados, acontecidos no epicentro, para dar visibilidade à história submersa e pouco visível. Ao captar o hic et nunc das vozes femininas do cordel, o Livro Delas renova o olhar acerca das tradições orais e dos estudos de gênero nas culturas populares por desvelar o trajeto das movências das vozes masculinas e femininas e suas dinâmicas nas tradições das culturas orais. A pesquisadora cearense faz, assim, o papel de “sismógrafo” por cartografar a linha tênue da divisão das vozes e por fazer um questionamento do sistema epistemológico e ontológico dos discursos de gênero no cordel. Seu olhar de pesquisadora analisa as tramas dos textos orais femininos e os múltiplos suportes. Isso constitui uma provocação aos estudos universitários.

Sabe-se que as vozes do cordel e seu caráter simbólico têm estudos e discussões limitadas nos cursos de Letras. A literatura de cordel quase sempre é relegada às “bordas” da literatura brasileira, acantonada a um lugar acanhado, para não dizer um papel de coadjuvante: pouco é vista pela crítica canônica e pela historiografia literária.

INTRODUÇÃO

 
Foi somente na transição entre o século XX ao XXI, no ano 2000, que uma das mais importantes obras sobre a produção de autoria feminina na literatura brasileira do século XIX, organizada por Zahidé Lupinacci Muzart, veio ao público e, não por acaso, por uma editora de mulheres. Até então quase nada sabíamos sobre as 52 autoras ali apresentadas que escreveram e publicaram, a exemplo de Nísia Floresta, Maria Firmina dos Reis, Idelfonsa Laura César, entre tantas outras. Essa publicação não trouxe a revisão necessária da historiografia literária que continua ignorando essas autoras e obras. Contudo, ela abriu o espaço para trazermos ao palco outras autorias femininas como a das mulheres do cordel e da cantoria, por exemplo. Se, conforme Rita Terezinha Schmidt (2001), as romancistas do século XIX foram excluídas da memória social e cultural da nação por apagamento historiográfico, o que dizer, então, das poetisas de folhetos em cordel e das cantadoras nordestinas, ignoradas pela historiografia oficial e até quase nunca representadas nos estudos da cultura popular e do folclore? São escassos os registros sobre autoria feminina. São poucas as pesquisas e referências sobre o tema. Eventualmente o pesquisador atento poderá encontrá-las em breves citações, notas de rodapé ou registros nos estudos dos folcloristas. Em cada campo do conhecimento do folheto, seja na História, na Literatura, no Cinema ou nas Artes Plásticas, é preciso elaborar uma outra historiografia para dar conta da presença da mulher, como é o caso deste livro-catálogo que pretende trazer as vozes das mulheres autoras de folhetos e cantadoras repentistas.

CAMINHOS E ABORDAGENS

 
CRÍTICA FEMINISTA, OS ESTUDOS DA MULHER E DE GÊNERO
 
A proposta de uma nova historiografia no campo da poética das vozes – cantoria e folheto – a partir da presença e contribuição da mulher, não se poderia aprofundar sem adentrar nas questões de gênero. O papel fundamental do GT Mulher e Literatura da Associação Nacional de Pós Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística, ANPOLL, provocou nos quase 35 anos da sua existência uma mudança radical na visão convencional da literatura brasileira e do seu cânone, graças a um trabalho intensivo de transgressão, subversão e descentramento do paradigma convencional dos estudos de Letras. Concernente aos estudos voltados para a poética das mulheres cantadoras e autoras de cordel, poucas foram as contribuições, embora esses estudos tenham sido fundamentais para elucidar o teor e as consequências do discurso oficial sobre o campo do cordel e da cantoria como sendo territórios exclusivamente masculinos. Um dos grandes pesquisadores do folheto, Joseph Luyten, afirma em um dos seus artigos: “Se os autores, por uma razão ou por outra, não conseguiram citar uma só autora, uma só trovadora, é que realmente o ‘sexo fraco’ não se interessa pelo cancioneiro nordestino” (LUYTEN, 2003, p. 146). A citação demonstra a postura do pesquisador em relação à questão feminina. Não somente nega a existência de uma produção poética de mulheres, como transfere para elas a responsabilidade de não haver, na historiografia, referências sobre suas poesias. Estes são alguns exemplos que exemplificam uma ordem de discursos que não reconhecem e até contestam a existência de mulheres cantadoras e trovadoras, até caírem nas piores contradições. No mesmo artigo, e algumas páginas depois, o mesmo pesquisador refere-se à cantadora Maria do Riachão.